Miscelânea

No Escuro (Elizabeth Haynes)

Faz muito tempo que eu tenho esse livro, mas nunca cheguei a, de fato, conseguir resenhar ele. É um livro denso que traz uma mensagem importante para a sociedade. Um livro que é emocionante, do começo ao fim.  Aos trancos e barrancos consegui desenvolver e explicar para vocês o quê me chamou atenção. Quando eu comprei, lembro que um amigo enviou a sinopse e fiquei meio zonza, porque a sinopse me fez ficar curiosa demais, já arquitetando na minha mente mil coisas que poderiam acontecer. No Escuro é lançamento da Editora Intrínseca e foi um livro que me prendeu do começo ao fim, e isso eu já adianto a vocês. A história, narrada em primeira pessoa, já começa com um julgamento (o que eu achei muito legal porque não tem exatamente uma “enrolação” vinda da autora – ela já deixa o leitor descobrir, de cara, o que aconteceu) e segue a vida de Catherine Bailey, uma mulher que sempre gostou de viver a vida intensamente, saindo com as amigas praticamente todos os dias, de bar em bar, para aproveitar a fase “eu sou solteira e ninguém vai me segurar”. Até que ela conhece Lee, o namorado perfeito. Que, no fim, não é tão perfeito assim.

O que acontece é que Cath Bailey passou por um grave problema que qualquer uma de nós, meninas, poderíamos ter passado. Eu poderia ser Catherine. Você, também. Sua mãe, sua irmã, sua prima, ou uma das suas melhores amigas. Em um mundo onde a segurança feminina não é total e onde nós encaramos relacionamentos abusivos e estupros, No Escuro aborda esse tema de uma forma duramente realista. O livro não tem uma narração cronológica que seja linear – em um momento estamos em 2007/2008, com a vida da personagem “pós-Lee”, mas o capítulo seguinte é marcado pela data de 2003/2004, e nós vamos acompanhando como se desenvolveu a relação entre Cathy e Lee e quando, exatamente, o paraíso virou o inferno. Eu me apeguei tanto aos personagens que em certos momentos eu me tornava uma pessoa aflita, querendo devorar tudo mais rápido. Em alguns momentos, Cathy também me irritou um pouco, mas depois foi revelando uma força de determinação que nos deixa finalmente ter um vislumbre da Catherine de antes – aquela, que conseguia viver sem preocupações.

Aqui, nós enxergamos que Elizabeth Haynes fez um trabalho maravilhoso criando esse thriller que não apenas retrata a vida de muitas mulheres pelo mundo, mas, também, ao fazer com que acabássemos percebendo como a vida de pessoas com o transtorno obsessivo compulsivo conseguem “viver”. O livro abre a história de uma moça que sofreu abusos psicológicos pelo o seu namorado. Você descobre isso logo nas primeiras páginas, e isso fica bem subentendido dentro da própria sinopse. Só que, o quê exatamente foi feito, ninguém sabe até ler. Ninguém sabe até acompanhar as duas versões de Catherine – a Cathy alegre, baladeira, que vive sempre com muita felicidade, convivendo com pessoas que gostam dela e a tratam bem, aos 24 anos… E a Catherine reservada, preocupada, cheia de TOCs, com uma bagagem de emoções e experiências complexas em sua vida. A crítica social para com a questão de como uma pessoa sobrevive a uma experiência traumática que a faz desenvolver um Transtorno Obsessivo Compulsivo, razão pela qual verifica no mínimo seis vezes a porta de entrada do apartamento em que vive, nunca vai por um caminho fixo do trabalho para casa, cuida de deixar as janelas e cortinas da mesma forma todos os dias. O TOC é um assunto sério e durante toda a leitura me fez pensar como é difícil para pessoas que passam por experiências traumáticas e desenvolvem isso (seja qual for o transtorno) vivem depois. Quer dizer, é possível mesmo encarar a vida com normalidade? Nem sempre.

A crítica social é algo tão presente, tão intenso que faz com que muitas vezes nós pensemos como as coisas podem tomar rumos tão injustos, mesmo na vida real. A partir do momento em que você começa a ler, algo desperta. Talvez, a sororidade. O principal é que a narrativa é tão bem construída, tão bem pensada  que, em certos momentos, você se pega pensando se Cathy não está louca. Se ela não é, de fato, a culpada. A pessoa que não consegue lidar com seus próprios problemas, suas dúvidas. É uma narrativa tão intensa que nos faz pensar em como as mulheres guerreiras conseguem superar isso tudo. Em se empenhar para conseguir construir a própria vida, e também a passar por cima dos obstáculos. Não é uma tarefa fácil, e ela provavelmente nunca se recupera 100% disso, mas o que é importante, é que ela permanece tentando, mesmo que de um jeito, por vezes, meio desnorteado, meio destrambelhado. Aqui, nós temos um vilão real. Ele é inteligente, bola artimanhas perigosas, persegue, espia. Ele é real e pode ser qualquer um desses homens que abusam e controlam as mulheres, e por isso mesmo torna a obra ainda mais tocante. Você provavelmente vai ficar, no fim, chocado. Em êxtase.

Lorena Schveper

Catarinense, teimosa por natureza. Metida a escritora e psicóloga, às vezes fazendo bico na arte de procrastinar. Bookaholic desde que se entende por gente, encontrou nas palavras a arte de amar. Tagarela que lê de tudo, até bula de remédio. Designer, unicórnia, cacheada, apaixonada por café. 🦄❤️

18 Comentários

    1. Eu gosto bastante de livros assim, sempre tive o costume de ler, tenho vários hahaha! Esse eu ainda não li, mas super me interessei.

      1. Foi uma das resenhas mais tensas que eu já publiquei, porque falar desse livro em específico é uma tarefa especialmente difícil, mas acho que consegui transmitir a mensagem ♥ Vá atrás sim, é incrível demais. <3

      1. O conteúdo vai além de cativar, Eva, e isso que torna ele tão incrível! É fantástico porque ele sempre te faz pensar uma coisa e aí WOW, é plotwist que tu não esperava! Recomendo demais. <3

      1. Tão forte que quase não consegui resenhar! Coloca ele na tua listinha sim, porque vale muito a pena! Logo devo trazer a resenha de outro livro dela, que é o “Restos Mortais”. 😉

    1. ooooi! não conheço tal livro… adoro livros que nos deixam chocados rsrs. Adorei sua escrita 🙂 amei também o desing do seu blog é bastante convidativo :-*

    1. Primeiro queria falar sobre o blog, não conhecia, mas já estou apaixonada, a dona do blog é filha de Hermes igual eu, e nascemos no mesmo distrito! hehe
      Agora falando especificadamente sobre o post da Lorena!
      Não conhecia esse livro, mas entrou na lista de livros para ler em breve, mas na categoria: vá com calma.
      Recentemente li um livro com a mesma temática mas que me parece um pouco mais leve, se é que é possível um livro que fala sobre abusos ser leve, mas era mais “adolescente” digamos assim, e mesmo sendo mais leve, ler sobre um relacionamento abusivo depois de já ter passado por um, doeu e MUITO, foi bem difícil, a leitura era parecida, alguns momentos no presente e aquela sensação de que ele está ali, outros momentos era no passado e descobríamos como todo esse relacionamento começou.
      Apesar de difícil, ler esse livro foi importante pra mim. E tenho certeza que ler esse livro da Elizabeth também será importante, só não sei se estou preparada.
      De qualquer modo, parabéns pela resenha.
      Beijos!

      1. Oooown, obrigada Tati! (ó as intimidades, meu deooos. kkkk) Sou filhota de Hades, então não somos meio-irmãs, so sad. Então… Vá com M U I T A calma. Porque o livro traz uma abordagem bem pesada. Eu já vivenciei um relacionamento abusivo (e é bem difícil entrar em detalhes, embora não tenha chegado a ser algo que me traumatizo), e eu me senti tocada justamente pela forma como a Elizabeth conduziu a trama, sabe? A ambientação do livro foi toda trabalhada muito cuidadosamente e isso mexeu demais comigo. Fora a personagem, que você vê bem essa marcação entre o que ela era e o que ela se tornou. É fantástico. Leia com calma, quando realmente estiver preparada. 😉

      1. Oi, Amanda! Fui dar uma procurada melhor pra te indicar, e o único local que encontrei mesmo foi na Estante Virtual, tu pode conferir aqui, porque não encontrei nem no submarino, nem na Americanas. Tá baratinho, então vale a pena. 😉

    1. uau! que enrendo! entendo porque voce disse que quando pegou a sinopse ficou um pouco abalada também. eu fico entre amor e ódio com livros assim. amor porque as histórias são fantásticas, prendem muito a gente, tem plots e loops que ninguém imaginava, tiram o fôlego. mas odeio porque toda essa carga emocional me afeta muito e eu fico sentindo o mesmo que a personagem dias a fio.. começo a criar as paranoias na minha cabeça sabe? são leituras que gosto mas que não me fazem bem. e essa parece ser bem desse tipo; arrebatadora. vou guardar a dica com carinho, mas estou um pouco receosa de ler, pelo menos agora. bjs

      1. Siiim!!! Fiquei bem tensa quando li a sinopse, mas um amigo quase implorou para eu ler e resenhar, o que não chegou a acontecer!! kkkk Tô resenhando agora, mesmo, porque achei ele recentemente e fiquei looouca pensando que “mds, nunca resenhei”. O bom mesmo é que quando a gente se põe no lugar de um personagem, é ótimo. Só que, quando chega a esse ponto de criar essa empatia pelo personagem a ponto de ficarmos meio que com o emocional afetado, acho que é bom sempre ir com muita calma. Não é um livro absurdamente pesado, sabe? Mas retrata muito fielmente as consequências dum relacionamento abusivo.

    1. nossa que resenha pesada, porém maravilhosa! já quero comprar ele urgente e vi que você indicou no comentário acima a estante virtual <3 vou inclusive compartilhar o post no face e com as amigas. Amei mesmo e to amando seu blog (to fuçando ele haha)

    1. Olá!
      Sempre que vejo um livro que me interessa eu evito olhar resenhas para não ficar tendenciosa, mas quem disse que eu consegui não ler? Socorro, que resenha super completa que deu muita vontade de ler. Amo suspenses e já vou adicionar este em minha lista!

      1. Acho que o segredo de uma boa resenha é não dar os detalhes supremos – não contar sobre a história e nem analisar só isso. 😉 Acho que o segredo é a gente sempre pensar nesse ângulo de quem tá lendo, porque entregar o resumo é fácil, difícil é falar mesmo a verdade sobre a obra. 😡

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