Textos

Eu não quero me esquecer de nada

Algumas pessoas não gostam de fotos. Não que elas não gostem da fotografia em si, acho até que isso é meio impossível, mas muitas pessoas acham que a nossa geração vive uma era de enganação. Que a imagem que está no instagram não reflete a vida real e que produzimos demais, pensamos demais, fazemos todo o possível para exibir aquele momento da melhor forma possível na nossa timeline. Ora, mas e no passado, quando as câmeras eram analógicas e você tinha que economizar suas trinta e seis poses? A foto também tinha que sair perfeita. O primo tinha que chegar mais para esquerda para ficar enquadrado, o sorriso tinha que demonstrar alegria e é claro que nos preocupávamos com os mínimos detalhes por termos apenas aquele filme tão precioso.

Hoje podemos tirar mil cliques e escolher o melhor, antes tínhamos que pensar e planejar muito mais antes de clicar. A diferença é que as fotos de antigamente iam parar no álbum de fotos da família, uma relíquia que só era mostrada aos mais íntimos e guardada com carinho. Agora, nossas fotos estão no instagram, no facebook e nos blogs. Isso é bom? É ruim? Não sei, só sei que é assim.

Cresci numa família que gostava de tirar foto de tudo. Tenho foto do meu primeiro dia de vida, da primeira vez que fiquei de pé, do primeiro dia na escola, até do primeiro machucado. Meus pais sempre gostaram de registrar os momentos e passaram esse gosto para mim. A diferença é que a minha geração não guarda mais suas fotinhos no álbum, nós gostamos de postá-las para compartilhar com o mundo a nossa visão, nosso olhar artístico, nosso mundo. Somos a geração do “look at me” e isso não é errado, é apenas diferente. Vejo muitos adultos dizendo que nos expomos demais, que gastamos muito tempo fotografando e esquecemos de viver, como se a nossa vida se resumisse ao nosso feed. Não é assim que funciona, ao menos não é assim que eu vejo.

Eu fotografo porque não quero me esquecer de nada. Não quero me esquecer daquele momento especial, daquele sorriso, mas também não quero me esquecer daquela produção, de ter pensado naqueles objetos, naquelas cores. Mesmo que o fundo da foto seja apenas uma parede branca eu quero me lembrar de que naquela fase da minha vida eu adorava paredes brancas! E eu compartilho porque, não vou mentir, eu gosto de saber que as pessoas gostam das minhas fotos. Mas eu gosto também de ver meu feed bonitinho.

Gosto de ver meu instagram como um álbum de fotos, só que diferente do passado, ele não fica guardado na gaveta para ser mostrado a apenas aquelas pessoas especiais. Ele está aí, online, disponível para qualquer pessoa do mundo poder ver, poder comentar, poder se identificar. Quantas pessoas já puxaram assunto comigo por causa de uma foto? Com quantas pessoas de quantos países diferentes eu já conversei apenas porque gostaram de uma imagem que eu postei? Podemos ser a geração look at me que quer se exibir o tempo inteiro, mas também somos a geração que ama a conectividade. Que faz conexões com pessoas do mundo todo, como se estivéssemos conversando com alguém do nosso próprio bairro. É, papais e mamães, nosso bairro aumentou. Nossas fotos nem sempre representam a realidade, mas elas sempre representam aquilo que queríamos passar no momento. E é disso que vamos nos lembrar. Das imagens que criamos e das amizades que conquistamos.

Amanda Ignis

Meu nome é Amanda Ignis, mas pode me chamar de Am. Sou uma sereia do Atlântico Sul. Filha de Hermes da Lufa-lufa, nasci no Distrito 4, escolhi a Audácia e caço demônios no meu tempo livre.

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