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Nos conhecemos em uma quinta-feira qualquer

Nos conhecemos em uma quinta-feira qualquer. Nos esbarramos em algum lugar, esquina com lugar nenhum. Você usava óculos, vestia xadrez e carregava livros – só depois eu soube que era Neruda.

Eu fui te descobrindo aos poucos. Ainda me lembro da noite em que, jogado no sofá, você lia Harry Potter e me contou que amava as cenas com os marotos. Te contei que meu personagem preferido era o Sírius. Você gostava de acordar cedo, mas ficava na cama até às dez. Descobri que tinha medo de altura naquele passeio em que visitamos o mirante em Osório, você ficou imóvel. Descobri que não poderia realizar o meu sonho de subir a Torre Eiffel com você. Seu prato preferido era pizza, adorava verde e amou descobrir que meus olhos às vezes ficavam dessa cor no sol. Você me ensinou a amar e a ser amada.

Você foi o meu primeiro.

Mas você tinha os seus sonhos e eu tinha os meus. Você fez um intercâmbio no último ano e eu fiquei aqui. Cada dia sem você era como uma facada no meu peito, e eu sabia que onde você estava não existia uma palavra para explicar o que eu estava sentindo tão bem como o português faria: saudade. Eu sentia saudade do seu sorriso, dos seus braços, dos seus olhos. De cheirar o seu cabelo e tocar seus lábios. Eu me encolhia na cama e passava horas ouvindo aquelas músicas que você amava. Eu duvido que alguém conheça as letras do Kansas melhor do que eu.

O início foi difícil. Nunca conseguíamos conversar no skype por causa do fuso horário, mas o meu dia se iluminava cada vez que eu via um novo e-mail seu na minha caixa de entrada. Eu passava todo o meu tempo livre atualizando a página até que isso acontecesse. Primeiro seus e-mails eram diários. Você me falou sobre o taxista mal-humorado e sobre a comida, falava que o sotaque era estranho e até que a água da privada girava para o lado errado.

Aí, em um dia qualquer, o seu e-mail não chegou. E de novo. E de novo. E seus e-mails se tornaram cada vez mais escassos. Você sempre começava se desculpando e dizendo que estava ocupado. Eu sabia que estava, você atualizava o seu facebook a cada cinco minutos com uma nova foto, uma nova notícia de algo incrível. O seu mundo agora era outro. E eu não vou esquecer os dias que chorei depois de ver aquela foto daquela loira pendurada no seu pescoço em um bar irlandês. As meninas me disseram que devia ser uma amiga, que não estavam fazendo nada demais, mas pra mim ela era apenas uma sirigaita que podia te tocar enquanto eu não era capaz de fazer isso.

Você me mandou um e-mail simples quando estava prestes a voltar. Eu te esperei no aeroporto. Meu coração doía há meses e eu nunca pensei que ele poderia pular como pulou quando eu te avistei de longe. Você me abraçou. Me beijou. E naquele momento eu achei que poderíamos voltar no tempo e continuar de onde havíamos parado.

Eu fui tão ingênua.

Conforme os dias foram passando eu vi que você não era mais o mesmo. Era um cara viajado, experiente, diferente do garoto do interior que me fazia sorrir. Não era ruim, eu gostei da mudança. Mas você tinha conhecido outros lugares, outras pessoas. Pessoas mais interessantes que eu. Você tinha crescido e eu ainda era a mesma menina infantil com sonhos bobos.

Nos afastamos aos poucos. Você passou para publicidade na capital, e eu fui estudar direito na cidade vizinha como meu pai também o fizera anos atrás. Trocamos e-mails e algumas conversas no skype. Você parou de me mencionar no facebook depois de alguns meses.

Agora a Constituição está me olhando com aquela cara que diz “estude”, mas minha mente está longe. Estou pensando em você. Pensando que, em outra realidade, talvez tivesse dado certo. Lembrei das suas teorias de realidades alternativas que você adorava ver naqueles filmes de ficção. Talvez um dia você volte à cidade para visitar seus familiares no Natal e nos esbarremos no supermercado. Talvez nossa história ainda não tenha acabado.

Talvez um dia você precise de uma advogada.

Amanda Ignis

Meu nome é Amanda Ignis, mas pode me chamar de Am. Sou uma sereia do Atlântico Sul. Filha de Hermes da Lufa-lufa, nasci no Distrito 4, escolhi a Audácia e caço demônios no meu tempo livre.

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19 Comentários

    1. Maravilhoso Am, uma história que virou duas, como tantas outras que a gente conhece. Mas com aquela remota possibilidade de voltar a ser uma novamente, quem sabe?

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